sábado, 7 de fevereiro de 2009

" Não sei quantas almas tenho "


"Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que eu sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue prevendo, O
que passou a esquecer.
Noto à margem do que li O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu"?
Deus sabe, porque o escreveu."

Fernando Pessoa

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Diz-me onde moras...(Miguel Esteves Cardoso)

"Um dos grandes problemas da nossa sociedade é o trauma da morada.

Por exemplo. Há uns anos, um grande amigo meu, que morava em Sete Rios, comprou um andar em Carnaxide.

Fica pertíssimo de Lisboa, é agradável, tem árvores e cafés. Só tinha um problema. Era em Carnaxide.

Nunca mais ninguém o viu.
Para quem vive em Lisboa, tinha emigrado para a Mauritânia!

Acontece o mesmo com todos os sítios acabados em -ide, como Carnide e Moscavide.
Rimam com Tide e com Pide e as pessoas não lhes ligam pevide.
Um palácio com sessenta quartos em Carnide é sempre mais traumático do que umas águas-furtadas em Cascais.
É a injustiça do endereço.

Está-se numa festa e as pessoas perguntam, por boa educação ou por curiosidade, onde é que vivemos.
O tamanho e a arquitectura da casa não interessam.
Mas morre imediatamente quem disser que mora em Massamá, Brandoa, Cumeada, Agualva-Cacém, Abuxarda, Alformelos, Murtosa, Angeja… ou em qualquer outro sítio que soe à toponímia de Angola.

Para não falar na Cova da Piedade, na Coina, no Fogueteiro e na Cruz de Pau. (...)
Ao ler os nomes de alguns sítios – Penedo, Magoito, Porrais, Venda das Raparigas, compreende-se porque é que Portugal não está preparado para entrar na CEE.

De facto, com sítios chamados Finca Joelhos (concelho de Avis) e Deixa-o-Resto (Santiago do Cacém), como é que a Europa nos vai querer integrar?

Compreende-se logo que o trauma de viver na Damaia ou na Reboleira não é nada comparado com certos nomes portugueses.
Imagine-se o impacte de dizer "Eu sou da Margalha" (Gavião) no meio de um jantar. Veja-se a cena num chá dançante em que um rapaz pergunta delicadamente "E a menina de onde é?",
e a menina diz: "Eu sou da Fonte da Rata" (Espinho).
E suponhamos que, para aliviar, o senhor prossiga, perguntando "E onde mora, presentemente?",
Só para ouvir dizer que a senhora habita na Herdade da Chouriça (Estremoz).

É terrível. O que não será o choque psicológico da criança que acorda,
logo depois do parto, para verificar que acaba de nascer na localidade de Vergão Fundeiro? Vergão Fundeiro, que fica no concelho de Proença-a-Nova, parece o nome de uma versão transmontana do Garganta Funda.
Aliás, que se pode dizer de um país que conta não com uma Vergadela (em Braga), mas com duas, contando com a Vergadela de Santo Tirso?
Será ou não exagerado relatar a existência, no concelho de Arouca, de uma Vergadelas? É evidente, na nossa cultura, que existe o trauma da "terra".
Ninguém é do Porto ou de Lisboa.

Toda a gente é de outra terra qualquer. Geralmente, como veremos, a nossa terra tem um nome profundamente embaraçante, daqueles que fazem apetecer mentir.
Qualquer bilhete de identidade fica comprometido pela indicação de naturalidade que reze Fonte do Bebe e Vai-te (Oliveira do Bairro).
É absolutamente impossível explicar este acidente da natureza a amigos estrangeiros ("I am from the Fountain of Drink and Go Away...").

Apresente-se no aeroporto com o cartão de desembarque a denunciá-lo como sendo originário de Filha Boa Verá que não é bem atendido. (...) Não há limites.
Há até um lugar chamado Cabrão, no concelho de Ponte de Lima.

Urge proceder à renomeação de todos estes apeadeiros.
Há que dar-lhes nomes civilizados e europeus, ou então parecidos com os nomes dos restaurantes giraços, tipo Não Sei, A Mousse é Caseira, Vai Mais um Rissol. (...)

Também deve ser difícil arranjar outro país onde se possa fazer um percurso que vá da Fome Aguda à Carne Assada (Sintra) passando pelo Corte Pão e Água (Mértola), sem passar por Poriço (Vila Verde), e acabando a comprar rebuçados em Bombom do "Bogadouro" (Ver nota) (Amarante), depois de ter parado para fazer um chichi em Alçaperna (Lousã).

(Bogadouro é o Mogadouro quando se está constipado!!!)

(Miguel Esteves Cardoso)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

..." Sou duro e bruto quando estou em queda " ...


Há dias durante um jantar de amigos, alguém que me conhece bem comentava que eu sou “duro e bruto quando estou em queda”.
Para ser sincero, tenho poucos amigos, por isso para além de amigos estavam também presentes algumas pessoas que me conhecem há já algum tempo e que acabaram por concordar com aquele comentário.

A minha amiga ABC, a quem nos últimos anos recorri sempre que me deparei com um desses grandes “vendavais”, dizia, com alguma razão, que em primeiro lugar nunca me acontece apenas uma coisa má, quanto vêm é em catadupa.
Tudo bem, até concordo!.

Depois existe aquela característica que, tal como qualquer pessoa normal não faz, eu sofro de uma forma alucinante embora não seja de todo visível.
A dor atinge-me de tal forma, que quando estou sozinho parece que hei-de chorar até me secarem as lágrimas, até me doerem as entranhas.
Ainda, para ajudar, aproveito e nesses momentos ponho sal em cima da ferida acabada de surgir, e nessa altura sofro tudo o que há para sofrer.
Vou ao fundo, perco a calma, a compostura, o amor-próprio, a noção dos limites, arranco a alma, até me cansar de mim próprio.

E depois….
Depois, e sem pré-aviso, acordo num dia em que tudo parece mais calmo, em que tudo fica subitamente bem e normal.
Nessa altura saio de um estado de quase putrefacção espiritual e de esgotamento físico, levanto a cabeça, respiro fundo, e reparo que a tal ferida esta a cicatrizar.

Diziam eles que eu sofro exactamente o mesmo que o resto das pessoas, mas muito mais intensamente e por um período de tempo muito mais curto.
Claro que ajuda o facto de estar sol, bem como uma série de outras coisas, mas ajuda sobretudo o facto de eu pensar que há duas coisas que me fazem chorar: tudo, e nada.

O tudo porque quando “choro” normalmente é pela dor da perda, da impotência, da injustiça. E quanto a essas dores, depois de muito sentidas, limito-me a conviver com elas.
O nada?.
Se é nada, é porque então não merece lágrimas.

Depois pode haver, de tempos a tempos, uma recaída já que uma cicatriz pode doer quando por exemplo o tempo muda.
Mas uma coisa é certa, esta nunca voltara a doer de uma maneira similar ao que doera anteriormente.